I Coríntios 12:4-7

“Existem tipos diferentes de dons espirituais, mas é um só e o mesmo Espírito quem dá esses dons. Existem maneiras diferentes de servir, mas o Senhor que servimos é o mesmo. Há diferentes habilidades para realizar o trabalho, mas é o mesmo Deus quem dá a cada um a habilidade para fazê-lo. Para o bem de todos, Deus dá a cada um alguma prova da presença do Espírito Santo.”

 

Corinto foi uma das maiores oportunidades do ponto de vista estratégico da expansão da Igreja de Jesus. E certamente foi o maior desafio. Era uma capital de uma província romana, que tinha um porto estratégico e muito movimentado, cheio de pessoas do mundo todo passando por ali todos os dias. Era uma cidade muito rica, muito próspera, com muitas influências culturais, intelectuais e religiosas.

Essas características que poderiam potencializar muito a expansão do anúncio do evangelho, também acabou produzindo uma Igreja muito diferente das outras que foram inauguradas por Paulo em seu ministério apostólico. A prática de iniciar o anúncio da boa nova nas sinagogas dá errado, por conta da fortíssima oposição dos judeus a Paulo e ao evangelho de Cristo, logo, a casa de Justo se torna o ponto de pregação inicial que vai permitir a implantação da Igreja ali.

Paulo fica 18 meses implantando a Igreja e precisa depois voltar pelo menos mais três vezes para resolver problemas. Como a Igreja começa a fazer sucesso entre os pagãos, existe uma pressão constante entre os velhos e os novos costumes que vem com a conversão ao caminho. Some-se a isso, Corinto era uma cidade efervescente intelectualmente e cultuava muito o orgulho do próprio sucesso, da vitória por esforço (ou por direito).

Neste contexto, Paulo escreve esta carta para a princípio responder dúvidas doutrinárias, mas gasta os seis primeiros capítulos tratando problemas gravíssimos que estão acontecendo nesta Igreja grande, rica e influente: a assimilação de doutrinas pagãs e filosofias misturadas ao evangelho, as constantes brigas e partidarismos por causa de modelos diferentes de pregação, os pecados de ordem sexual (incestos, sexo fora do casamento) sem tratamento adequado, a total desordem no momento dos ajuntamentos solenes e das cerimônias.

Tudo o que a Igreja em Corinto estava vivendo tem muita relação ao nosso tema do mês. Pessoas convertidas a Jesus podem escolher deixá-lo de fora de diversos aspectos de suas vidas, e geralmente, pode acarretar verdadeiros desastres. Hoje vamos aprender com Paulo que existe mais um aspecto de nossas vidas em que podemos afastar a Deus: o uso dos dons espirituais e talentos dados, veja você, pelo próprio Deus.

Qual o impacto de deixarmos Deus de fora dos dons e talentos que Ele nos deu? Quais os motivos e consequências de fazermos isso?

DONS E TALENTOS, PRESENTES DE DEUS

 

Estas são duas palavras extremamente confundidas na Bíblia. Muitos cristãos hoje em dia usam de maneira errada essas palavras para definir coisas que aparentemente são iguais, mas não são. TALENTO (talentum) é uma aptidão, uma habilidade nata ou adquirida. Hoje sabemos que ela é fruto das diversas manifestações de inteligência humana e mesmo sendo nata, precisa ser aprimorada e desenvolvida.

Quando Paulo fala de DONS (charismatón), ele fala de um presente, uma capacidade extraordinária, sobrenatural dada gratuitamente por Deus para cumprir um propósito específico na Igreja, ou no reino de Deus. Os dons vêm do Espírito Santo de Deus a nós para glorificar a Deus, aprimorar os santos e expandir o Reino.

O talento vem de Deus e pode ou não ser usado para Ele. O dom vem de Deus e DEVE ser usado para ele. Deus cria os homens para louvor da sua glória e tanto dons e talentos podem servir para evidenciar a glória do Senhor e servir de instrumento para o agir Dele. Davi era um músico talentoso, que passou muitas horas ensaiando junto às ovelhas do pai dele. Entretanto, quando ele é levado para tocar para Saul, não é o seu talento musical que traz a libertação momentânea, é o Espírito de Deus manifesto através da pessoa de Davi.

Deus capacita Bezalel e Aoliabe (Êxodo 31:1-11) com habilidades e aptidões para fazerem todo o trabalho artístico de criação dos utensílios do tabernáculo. Deus dá o talento necessário a eles para que a sua obra seja realizada.

 

AFASTANDO DEUS PELO ORGULHO

 

Paulo precisa enfatizar para a Igreja de Corinto que eles não estavam usando os dons de maneira correta. Alguns dons estavam sendo utilizados para mostrar uma espiritualidade falsa, principalmente o dom de línguas. Os membros da igreja estavam afastando a Deus de um processo que deveria denotar a manifestação extraordinária de poder do próprio Deus!

Cria-se na Igreja em Corinto então uma verdadeira confusão espiritual. É por isso que Paulo precisa enfatizar (v.4) que apesar de existirem diferentes dons, o Espírito que dá estes dons é o mesmo, e sendo assim não há como a manifestação de um servir para anular, ou inferiorizar a manifestação do outro.

Os “dons da moda” são os que dão IBOPE, que são externos, que servem para mostrar poder, para mostrar uma superioridade espiritual, uma intimidade inexistente com Deus. Ao invés de cumprir o seu propósito, os dons estão servindo para produzir confusão, para criar uma divisão artificial e uma “elite” espiritual dentro da igreja.

Este exemplo da Igreja em Corinto serve para nós hoje. É um ótimo exemplo de como podemos deixar Deus de fora de uma coisa que é Dele e é para Ele. A falsa espiritualidade é uma evidência de que estamos afastando Deus da conversa, nos colocando em um lugar que não é nosso, e dando visibilidade a alguém que não deve ser o foco. O dom espiritual é para evidenciar a Cristo, e não à pessoa que o manifesta.

 

O AFASTAMENTO QUE GERA FRACASSO (Mateus 25:14-29)

 

Mateus apresenta a Jesus ao judeu comum. Seu objetivo é relacionar a pessoa de Jesus com o Messias esperado e profetizado. Ele escreve seu evangelho de maneira muito didática e estruturada com foco nos sermões que Jesus fez, onde Cristo expressa de maneira muito didática o Reino de Deus, seus valores e seu propósito.

A partir do capítulo 24, ele começa seu último grande discurso, o da apresentação final do Reino de Deus aos judeus. Jesus conta várias pequenas histórias para mostrar os princípios do Reino, os valores do Reino, o funcionamento e a lógica do Reino, que via de regra estavam bem distantes dos princípios, valores, funcionamento e lógicas da religião automatizada e fria que os líderes espirituais judaicos haviam criado em torno da lei mosaica.

No capítulo 25, Jesus vai contar mais uma dessas parábolas para evidenciar o problema de deixar Deus de fora do que você recebe Dele e faz para Ele. Jesus conta a estória de um homem que vai fazer uma viagem e deixa três de seus funcionários tomando conta de sua propriedade e dos seus negócios. Ele distribui diferentes mais importantes valores em dinheiro para cada um dos três funcionários, de acordo com a capacidade (habilidade, aptidão, talento) que cada um tinha de fazer aquele dinheiro render.

Quando volta de viagem, o homem faz a prestação de contas com seus empregados. Dois deles fazem o dinheiro em sua mão duplicar. Entretanto, o último deles ao prestar contas, já chega se desculpando e justificando de maneira muito atabalhoada o porquê de não ter feito o dinheiro render nada. A recompensa dada aos dois primeiros foi a de que eles seriam responsáveis por coisas maiores por causa de sua fidelidade. Enquanto a recompensa do terceiro foi perder tudo o que tinha, inclusive o emprego.

Jesus expõe nessa parábola a lógica distorcida que uma pessoa que recebe um dom de Deus para realizar a sua obra, que não só falha em sua missão, mas também evidencia indignidade no processo. O dom tem um propósito para o Reino de Deus, e se nos é dado, precisa ser colocado em ação. Mas apenas vão conseguir “fazer render” os seus dons aqueles que permanecerem focados no Deus que dá o dom e em seu Reino. A justificativa disfarçada de medo do terceiro empregado denota uma visão completamente errada que ele tinha do seu senhor.

Os motivos para que ele tivesse esta visão podem ser: o não conhecimento do seu senhor; a falta de valorização e desenvolvimento de suas capacidades; o desleixo com a missão e o propósito.

Deixarmos Deus de fora de qualquer aspecto de nossa vida nunca é uma boa ideia. A salvação e principalmente, o senhorio de Cristo pressupõem um controle total de todos os aspectos, áreas, recursos, emoções que nos tornam quem somos. Só podemos ser reconhecidos como novas criaturas, quando permitimos que Jesus tome o controle de nossas vidas, em cada detalhe, tirando de nós valores carnais e pecaminosos e substituindo pelos valores do céu.

 

Deixar Deus de fora das capacidades ordinárias e extraordinárias que Ele nos deu pode abrir um precedente muito perigoso na vida do discípulo de Jesus, abrindo as portas para que o orgulho entre, para que removamos a Cristo do trono de nossa vida e voltemos a dar o poder a quem não tem poder e nem capacidade de fazer as coisas darem certo. Além do que, o orgulho humano desfaz o sacrifício de Jesus na cruz, abre precedentes para que os pecados se acumulem, sejam escondidos e façam estragos em nossas vidas e na vida das pessoas que nos cercam.

 

Deixar Deus de fora do ato de exercitar o uso dos dons e talentos que Ele nos deu gratuitamente pode ser um sintoma de alguém que está com uma visão distorcida de quem esse Deus é e do que Ele quer e pode fazer em e através de nossas vidas. Essa visão distorcida é perigosa, pois ela pode nos levar a perdermos tudo, à derrota definitiva da ausência do Senhor em nossas vidas.